{"id":172,"date":"2010-10-03T01:51:00","date_gmt":"2010-10-03T01:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/filipesaraiva.info\/blog\/?p=172"},"modified":"2010-10-03T01:51:00","modified_gmt":"2010-10-03T01:51:00","slug":"do-estadao-dois-pesos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/filipe.saraiva.tec.br\/blog\/?p=172","title":{"rendered":"Do Estad\u00e3o: Dois pesos&#8230;"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Interessante pondera\u00e7\u00e3o da jornalista Maria Rita Kehl, do jornal Estad\u00e3o, sobre a desqualifica\u00e7\u00e3o do voto do pobre. Isso \u00e9 o que chamamos de &#8220;criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza&#8221;, e j\u00e1 foi muito debatido em encontros por a\u00ed.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O link para o post original <a href=\"http:\/\/www.blogger.com\/www.estadao.com.br\/estadaodehoje\/20101002\/not_imp618576,0.php\">\u00e9 este<\/a>; entretanto, coloquei-o na \u00edntegra pois achei-o de fundamental import\u00e2ncia para embasarmos o debate sobre pol\u00edticas sociais no pa\u00eds. Segue abaixo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente elei\u00e7\u00e3o. Fica assim mais honesta a discuss\u00e3o que se faz em suas p\u00e1ginas. O debate eleitoral que nos conduzir\u00e1 \u00e0s urnas amanh\u00e3 est\u00e1 acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. As campanhas, transformadas em espet\u00e1culo televisivo, n\u00e3o convencem mais ningu\u00e9m. Apesar disso, alguma coisa importante est\u00e1 em jogo este ano. Parece at\u00e9 que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos \u00faltimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga \u00e9 maquiada, mas na internet o jogo \u00e9 duro.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se o pov\u00e3o das chamadas classes D e E &#8211; os que vivem nos grot\u00f5es perdidos do interior do Brasil &#8211; tivesse acesso \u00e0 internet, talvez se revoltasse contra as in\u00fameras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento j\u00e1 \u00e9 familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das pol\u00edticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula n\u00e3o valem tanto quanto os nossos. N\u00e3o s\u00e3o express\u00e3o consciente de vontade pol\u00edtica. Teriam sido comprados ao pre\u00e7o do que parte da oposi\u00e7\u00e3o chama de bolsa-esmola.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Uma dessas correntes chegou \u00e0 minha caixa postal vinda de diversos destinat\u00e1rios. Reproduzia a den\u00fancia feita por &#8220;uma prima&#8221; do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indol\u00eancia dos trabalhadores n\u00e3o qualificados de sua cidade, queixava-se de que ningu\u00e9m mais queria ocupar a vaga de porteiro do pr\u00e9dio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Fam\u00edlia. Ora, essa. A que ponto chegamos. N\u00e3o se fazem mais p\u00e9s de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma mis\u00e9ria? Sim, porque \u00e9 curioso que ningu\u00e9m tenha questionado o valor do sal\u00e1rio oferecido pelo condom\u00ednio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Fam\u00edlia s\u00f3 seria vantajosa para os supostos espertalh\u00f5es, pregui\u00e7osos e aproveitadores se o sal\u00e1rio oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do m\u00ednimo. R$ 200 \u00e9 o valor m\u00e1ximo a que chega a soma de todos os benef\u00edcios do governo para quem tem mais de tr\u00eas filhos, com a condi\u00e7\u00e3o de mant\u00ea-los na escola.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Outra den\u00fancia indignada que corre pela internet \u00e9 a de que na cidade do interior do Piau\u00ed onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, \u00e9 estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de Jos\u00e9 Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as fam\u00edlias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. S\u00f3 que agora comem. Alguns j\u00e1 conseguem at\u00e9 produzir e vender para outros que tamb\u00e9m come\u00e7aram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Fam\u00edlia, acreditem se quiserem, proporciona as condi\u00e7\u00f5es de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da &#8220;esmolinha&#8221; \u00e9 pol\u00edtico e revela consci\u00eancia de classe rec\u00e9m-adquirida.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contr\u00e1rio do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se at\u00e9 pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um sal\u00e1rio m\u00ednimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consci\u00eancia de seus direitos, hoje n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil encontrar quem aceite trabalhar nessas condi\u00e7\u00f5es. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Fam\u00edlia, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de popula\u00e7\u00e3o em estado de pobreza extrema. Ser\u00e1 que o leitor paulistano tem ideia de quanto \u00e9 preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferen\u00e7a de R$ 200? Quando o Estado come\u00e7a a garantir alguns direitos m\u00ednimos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de &#8220;acumula\u00e7\u00e3o primitiva de democracia&#8221;.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquec\u00edvel observa\u00e7\u00e3o de Pel\u00e9, n\u00e3o est\u00e3o preparados para votar. Nem todos, \u00e9 claro. Depois do segundo turno de 2006, o soci\u00f3logo H\u00e9lio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus pr\u00f3prios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instru\u00eddos pensavam nos interesses do Pa\u00eds. Jaguaribe s\u00f3 n\u00e3o explicou como foi poss\u00edvel que o Brasil, dirigido pela elite instru\u00edda que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro mil\u00eanio contando com 60% de sua popula\u00e7\u00e3o t\u00e3o inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabe\u00e7a acima da linha da mendic\u00e2ncia e da depend\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es de favor que sempre caracterizaram as pol\u00edticas locais pelo interior do Pa\u00eds, dizem que votar em causa pr\u00f3pria n\u00e3o vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos m\u00ednimos que desejam preservar pela via democr\u00e1tica, parte dos cidad\u00e3os que se consideram classe A vem a p\u00fablico desqualificar a seriedade de seus votos.<\/div>\n<div class=\"blogger-post-footer\"><script expr:src='\"http:\/\/feeds.feedburner.com\/~s\/LiberdadeNaFronteira?i=\" + data:post.url' type=\"text\/javascript\" charset=\"utf-8\"><\/script><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interessante pondera\u00e7\u00e3o da jornalista Maria Rita Kehl, do jornal Estad\u00e3o, sobre a desqualifica\u00e7\u00e3o do voto do pobre. Isso \u00e9 o que chamamos de &#8220;criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza&#8221;, e j\u00e1 foi muito debatido em encontros por a\u00ed. 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