{"id":89,"date":"2009-02-19T02:50:00","date_gmt":"2009-02-19T02:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/filipesaraiva.info\/blog\/?p=89"},"modified":"2009-02-19T02:50:00","modified_gmt":"2009-02-19T02:50:00","slug":"gilberto-dupas-ciborque-e-o-mundo-que-vem-por-ai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/filipe.saraiva.tec.br\/blog\/?p=89","title":{"rendered":"Gilberto Dupas &#8211; Ciborque e o Mundo que vem por a\u00ed"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9 com muito pesar que coloco aqui, em meu blog, um texto de Gilberto Dupas, que <a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/vidae,morre-o-escritor-e-cientista-social-gilberto-dupas,325317,0.htm\">faleceu recentemente<\/a>. Grande intelectual brasileiro, era um pesquisador que escrevia muito sobre as concep\u00e7\u00f5es do p\u00f3s-humano, mas com um diferencial: n\u00e3o se perdia em balelas e futilidades pseudo-art\u00edsticas, que alguns escritores p\u00f3s-modernos que tratam o mesmo tema perseguem com \u00e2nsia incalcul\u00e1vel.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na verdade, as rela\u00e7\u00f5es de trabalho, submiss\u00e3o, pol\u00edtica, capital&#8230; tudo isso era pautado por Dupas em seus textos. Para ele, as novas configura\u00e7\u00f5es do homem n\u00e3o abalavam a teoria social cl\u00e1ssica, dos te\u00f3ricos economistas e sociais. Ou seja, ele tamb\u00e9m n\u00e3o era dado ao que alguns escritores marxistas fazem de simplesmente negar a realidade que os cercam.<\/p>\n<p><a onblur=\"try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}\" href=\"http:\/\/blog.filipesaraiva.info\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/01204602700.jpg\"><img decoding=\"async\" style=\"margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 200px;\" src=\"http:\/\/blog.filipesaraiva.info\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/01204602700.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>Em suma, era um homem de brilhantismo \u00edmpar nestes tempos. Segue seu texto, publicado no Estado de S\u00e3o Paulo:<\/p>\n<p>&#8212; Ciborque e o Mundo que vem por a\u00ed<\/p>\n<p>Avida humana \u00e9 finita. No entanto, a aceita\u00e7\u00e3o da morte est\u00e1 sumindo lentamente do nosso horizonte simb\u00f3lico, cultural e social por conta das conquistas sucessivas da ci\u00eancia biom\u00e9dica. Prolongar a vida a qualquer pre\u00e7o tornou-se o objetivo maior. A soci\u00f3loga Celine Lafontaine lembra que sempre clamamos pela imortalidade. Pante\u00f5es, academias, memoriais, nomes de ruas e viadutos pelo mundo afora atestam nosso desejo de eternidade.<\/p>\n<p>Agora a onda das bioci\u00eancias reativou a fantasia da eterna juventude. O biologista Aubrey de Grey garante que \u201ca pessoa que viver\u00e1 eternamente j\u00e1 nasceu\u201d. Clonagem, altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas, criogenia e prolongamento artificial da vida s\u00e3o pr\u00e1ticas correntes. A prolifera\u00e7\u00e3o cultural do mito do ciborgue e do p\u00f3s-humano marca nossos pr\u00f3ximos passos.<\/p>\n<p>A extens\u00e3o das fronteiras decorre dos avan\u00e7os biom\u00e9dicos. O agonizante mantido vivo em UTIs, entubado, atado a fios, tubos e aparelhos cada vez mais invasivos, \u00e9 visto pelo antrop\u00f3logo Chris Hables Gray como o tipo ideal de ciborgue. A decifra\u00e7\u00e3o dos c\u00f3digos e programa\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas promete o acesso ao segredo da vida. Para a soci\u00f3loga Dorothy Nelkin, a sacraliza\u00e7\u00e3o da ideia de que os genes s\u00e3o imortais se reflete no fetichismo do DNA, que se sup\u00f5e conter a ess\u00eancia da individualidade subjetiva.<\/p>\n<p>Rel\u00edquia do mundo p\u00f3s-moderno, cada fragmento de DNA abrigaria, na ret\u00f3rica do genoma, a ess\u00eancia informacional de uma pessoa e sua identidade gen\u00e9tica. O nascimento de Dolly marcou nossa entrada definitiva na era da p\u00f3s-mortalidade. As c\u00e9lulas-tronco s\u00e3o uma mina de ouro para o desenvolvimento da medicina regenerativa dos tecidos. A ideia de reagrupar estrat\u00e9gias e interven\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas visando reparar tecidos danificados do corpo humano restringiria a morte a acidentes extraordin\u00e1rios ou destrui\u00e7\u00e3o extrema das for\u00e7as vitais.<\/p>\n<p>Do transplante de \u00f3rg\u00e3os \u00e0s terapias gen\u00e9ticas, passando pela fabrica\u00e7\u00e3o de tecidos de substitui\u00e7\u00e3o, a ind\u00fastria biofarmac\u00eautica e a medicina regenerativa assumem o biocontrole de uma sociedade que se quer p\u00f3s-mortal. Seus passos s\u00e3o estimular mecanismos de autorrepara\u00e7\u00e3o; implantar tecidos ou \u00f3rg\u00e3os produzidos fora do corpo; rejuvenescer c\u00e9lulas que afetam o rel\u00f3gio biol\u00f3gico; e, por meio da nanotecnologia, reconstruir corpo e c\u00e9rebro em escala molecular com adi\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia artificial. Esse modelo quer libertar o humano da \u201cpris\u00e3o biol\u00f3gica da mortalidade\u201d por meio da sua fus\u00e3o com a m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Ray Kurzweil sustenta que o organismo humano \u00e9 obsoleto. A ideia \u00e9 fazer o download do conte\u00fado da intelig\u00eancia humana em uma m\u00e1quina a fim de obter sua exist\u00eancia p\u00f3s-biol\u00f3gica. O soci\u00f3logo William Sims Bainbridge e o pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica Norbert Wiener afirmaram que ser\u00e1 poss\u00edvel brevemente gravar o conte\u00fado de um ser humano em um CD e transport\u00e1-lo nos bolsos, o que eles aplaudem como a liberta\u00e7\u00e3o do corpo, visto como suporte fr\u00e1gil e fal\u00edvel. O paciente em estado de morte cerebral \u00e9 o prot\u00f3tipo do ciborgue. E as nanotecnologias s\u00e3o consideradas a solu\u00e7\u00e3o miraculosa para a fragilidade humana e da morte, fazendo a hibrida\u00e7\u00e3o entre o natural e o artificial.<\/p>\n<p>Para Eric Gullichsen o c\u00e9rebro \u00e9 a alma neurol\u00f3gica, o DNA faz a alma molecular e as nanotecnologias criar\u00e3o a alma at\u00f4mica. Em suma, trata-se de f\u00edsica qu\u00e2ntica, microeletr\u00f4nica, inform\u00e1tica, biologia molecular com a engenharia molecular e cibern\u00e9tica manipulando mat\u00e9ria reorganizada em n\u00edvel at\u00f4mico e fazendo a fus\u00e3o entre as esp\u00e9cies viventes e as m\u00e1quinas.<\/p>\n<p>Para o cientista Robert A. Freitas, \u201ca nanomedicina pode aprender a inverter completamente as falhas celulares e fazer os idosos recuperarem boa parte da sa\u00fade e da juventude, da for\u00e7a e da beleza, desfrutando de uma extens\u00e3o quase indefinida de sua vida\u201d. Em Becoming Immortal, Stanley Shostak prop\u00f5e modificar geneticamente o corpo humano a fim de parar seu crescimento biol\u00f3gico antes do per\u00edodo de puberdade.<\/p>\n<p>Os indiv\u00edduos assim transformados poderiam viver indefinidamente. Tornados est\u00e9reis pelo bloqueio artificial de seu desenvolvimento, eles n\u00e3o seriam nem homens nem mulheres, mas seres assexuados e fisicamente imaturos, ainda que intelectualmente adultos.<\/p>\n<p>O modelo desenvolvido por Shostak \u00e9 largamente inspirado pela figura te\u00f3rica do ciborgue tal como a elaborou Donna Haraway. Meio natural e meio artificial, meio homem e meio mulher, o ciborgue \u00e9 um ser emancipado da pris\u00e3o da diferen\u00e7a sexual, da opress\u00e3o de g\u00eaneros e da procria\u00e7\u00e3o. Dissociada da sexualidade, a procria\u00e7\u00e3o seria feita tecnicamente em \u00fatero artificial. Pobres de n\u00f3s!<\/p>\n<p>Evocando a hip\u00f3tese de uma superpopula\u00e7\u00e3o causada pelo aumento da longevidade, os cientistas defensores dessas ideias prop\u00f5em limite radical aos nascimentos.<\/p>\n<p>Num brado exacerbado de hedonismo e individualismo, afirmam que entre escolher viver eternamente ou nos reproduzir, a grande maioria de n\u00f3s optaria pela imortalidade. Querer ultrapassar as fronteiras da morte \u00e9, para Christopher Lasch, nosso fantasma narc\u00edsico como capazes de lidar com os limites da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>O biocapital, figura mai\u00fascula da economia globalizada, com essas linhas de pesquisa deixa entrever uma nova forma de domina\u00e7\u00e3o e de desigualdade. Enquanto anuncia o alongamento sem fim da expectativa de vida das gera\u00e7\u00f5es mais velhas a custos exorbitantes, cerceando o espa\u00e7o essencial da altern\u00e2ncia de gera\u00e7\u00f5es, reduz a sa\u00fade dos jovens estimulando o consumismo que provoca obesidade, diabetes, c\u00e2nceres e outras doen\u00e7as sist\u00eamicas geradas pelas contamina\u00e7\u00f5es e pela inatividade f\u00edsica.<\/p>\n<p> Quem gostaria de viver nessa sociedade que os arautos do futuro anunciam?<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/lablogatorios.com.br\/eccemedicus\/2009\/02\/18\/dupas-e-o-pos-humano\/\">Ecce Medicus<\/a><\/div>\n<div class=\"blogger-post-footer\"><script expr:src='\"http:\/\/feeds.feedburner.com\/~s\/LiberdadeNaFronteira?i=\" + data:post.url' type=\"text\/javascript\" charset=\"utf-8\"><\/script><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 com muito pesar que coloco aqui, em meu blog, um texto de Gilberto Dupas, que faleceu recentemente. 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